Love to love you baby, um hino de amor que nunca será esquecido

Quincy Jones declarou logo após a morte de Donna Summer: “Descanse em paz, minha querida. Sua voz foi a batida do coração e a trilha sonora de uma década.” Eu, que vivi intensamente a tal década –de 70– concordo inteiramente com ele. Donna Summer foi não só quem que deu alma e coração a dance music… Como também foi aquela de suas intérpretes que, com seus trinados poderosos, deu mais voz alento a toda uma geração de despossuidos.

Lembro-me de quando os primeiros acordes de “I Feel Love” soavam no buraco que era a boate La Cueva, ali em Copacabana, e uma legião de Donnas Sommers –pretas, brancas, mulatas, louras, japonesas e todas do sexo masculino– saíam dos seus desvãos e, com a mais extrema aplicação, passavam a imitá-la na exígua pista de dança. Comigo entre elas, eu e meu amigo Adão Acosta, os dois que carregavam na costa o jornal Lampião. Jornalista de vida breve, negro e atrevido, Adão costumava se apresentar como a mais autêntica Donna Summer de todas, embora fosse contestada por outra, negra e com 1,80 como ele: era Xana Summer, que se apresentava profissionalmente como um clone da Diva na boate Casanova, e que na vida real atendia pelo prosaico nome de Cristiano de Sousa.

Tenho pensado muito naqueles anos 70, e no quanto neles era fluida e móvel a fronteira entre a opressão absoluta e a total permissividade. Naquele tempo nós, os fanáticos por Donna Summer, os que achavam que a liberdade tinha que nos dar muito mais que a mera e simples abertura política, considerávamos até mesmo a ida à boate, que mal começara a se chamar discoteca, um ato político. E “Enough is Enough” era a nossa Guantanamera, nosso grito de guerra, nosso hino: no more tears darlings, vamos pra rua a cantar e a dançar ao som da nossa Diva Absoluta pra mostrar a eles o quanto o nosso amor é lindo!

Ah, os anos 70: se a tal Comissão da Verdade quiser fazer alguma coisa de útil, que os estude em profundidade, mas do ponto de vista sociológico e não em busca de pretextos para o revanchismo político. Se o fizer, então descobrirá que a verdadeira contestação ficava num buraco bem mais embaixo do rasteiro e cheio de lugares comuns ativismo de esquerda… E nele uma voz ecoava sem parar, porque havia alguém que resolvera por seu canto a serviço da causa dos verdadeiramente oprimidos.

“Love to love you baby!”, no que depender de mim, este hino de amor dedicado a todos que mais precisam de amor nunca será esquecido.

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